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Especialistas apontam meios de prevenção ao suicídio em audiência pública
 
Audiência foi realizada nesta quinta-feira (8)


>>08/12/2022

Fortalecimento de vínculos familiares, escuta ativa, rede de apoio, menor exposição à Internet, religiosidade, autoconhecimento, lazer,  vivência comunitária, rede de atendimento público em saúde mental efetivo e ampliado foram algumas das alternativas levantadas como formas de prevenção ao suicídio, durante a audiência pública realizada, na noite desta quinta-feira (8), na Câmara Municipal de Três Lagoas.

A audiência foi proposta pelo vereador Doutor Issam Fares e contou com a presença da ex-vereadora Cristina Ferreira, propositora de projeto de lei que estabelece audiências públicas sobre o assunto. Ela relatou perdas de pessoas queridas, recentemente, e reafirmou a necessidade de trazer o tema à discussão com constância, para tentar reduzir os danos.

Sidney Ferreira Ribeiro Júnior, psicólogo do Ministério Público da Vara da Infância, afirmou que o pós-pandemia deu o alerta para pensar mais na vida e no risco do suicídio. Contou que, em 2022, a sociedade três-lagoense começou a discutir, por meio da Associação de Psicólogos de Três Lagoas, com especialista em manejo da crise do suicida. Segundo ele, existe uma proposta de formar comitê para tratar o tema.

Ferreira informou que existem pessoas que fazem a tentativa, porém não querem morrer, mas sim chamar a atenção para seu sofrimento, e que são mais fácil de salvar. Outras, afirmou, são suicidas realmente, sendo mais difícil de salvar, porque faz calado. Assim, na visão do psicólogo, quanto mais se falar do tema, mais as pessoas saberão pedir ajuda no momento de crise e de desafios para sua vida, porque a tendência é se isolar. Ele se colocou à disposição para articular a criação de um grupo que ajude na prevenção.

O vereador Negu Breno também lembrou que a pandemia acirrou problemas familiares, afetando questões psicológicas. Ele disse que, nas escolas, tem sido possível ouvir as queixas e avaliar riscos com jovens e crianças, que conseguem se abrir mais no ambiente escolar do que no familiar.

Já a vereadora Evalda Reis também contou que, como coordenadora de programas sociais, presenciou muitos casos de dores nas almas de crianças, que se mutilavam. Ela avaliou que é triste ter que debater o assunto, porém é necessário.

O propositor da audiência, vereador Doutor Issam Fares Júnior, também disse que abordar o assunto é de extrema relevância, porque a consequência social de um suicídio é muito danosa, principalmente aos familiares e amigos que ficam. Por isso, disse que é preciso entender o que fazer para evitar o ato.

Segundo Issam Fares, o assunto é extenso e a cada debate é possível avançar no entendimento e na busca de soluções para a auto agressão a si mesmo. O médico afirmou que quando iniciou seu trabalho, no âmbito de saúde do trabalho, prescrevia muitos medicamentos para doenças ergonômicos e, atualmente, tem prescrito mais medicamentos para dormir e controlar ansiedade, o que demonstra o agravamento da situação em nível geral.

A segunda vice-presidente da Câmara, vereadora Marisa Rocha, agradeceu a todos os presentes e disse que ela, Issam e Evalda estão empenhados em achar medidas que possam ajudar as pessoas. Disse que é difícil lutar contra o que não se conhece e relatou que também quer aprender para auxiliar, sabendo que o suicídio é o resultado trágico de uma doença mental. Também defendeu que o poder público tem que prestar assistência psicológica para a totalidade dos doentes, ainda no início, visando ter melhores resultados.

A primeira palestra foi proferida pela psiquiatra e especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e médica atuante no CAPS 2, Priscila Raquel Salomão de Oliveira Neves. Atendendo na rede de atenção psicossocial, há 11 anos, ela disse que a cidade vive a melhor fase de oferta de trabalho e acolhimento na área de saúde mental, no setor público.

Segundo ela, a rede pública é formada desde a atenção básica, nos postos de saúde, com psicólogos para acolhimento e direcionamento para outros profissionais. No CAPS-2, se atende pacientes com surtos psicóticos, que tentaram suicídio ou casos mais graves de depressão. Ainda existe um ambulatório de especialidades para atendimento, a Clínica da Criança para a área infantil, um programa para adolescentes com ideias suicida e ainda tem a UPA para a entrada de pessoas com emergências psiquiátricas e tentativas de suicídio. O SAMU e Corpo de Bombeiros também auxiliam na contenção de surtos. Ainda tem o CAPS-AD que atende pessoas em uso abusivo de álcool e drogas.

Ainda assim, os dados epidemiológicos do município apontam que houve 14 suicídios, em 2020; sete, em 2021; e 12, em 2022.

“O suicídio é um ato com intuito de tirar a vida, é como meio de gritar por ajuda. A tragédia da morte é o desespero de quem não encontra esperança”, afirmou. A médica disse que 96% das pessoas que tentam esta prática têm transtornos mentais, tais como desvios de personalidade, transtorno bipolar, depressão e uso de álcool e drogas.

“Quando nos debruçamos para achar as causas e traçar estratégias de prevenção e planos para agir, nós nos deparamos com situações que vão além da saúde, nós nos deparamos com as consequências da modernidade líquida dos dias atuais”, disse. Neste contexto social, segundo a profissional , falta referência, não há formato, tudo é relativo, tudo é incerto.

“O caos da vida contemporânea tem aberto as portas do suicídio. Mudanças nas relações de trabalho e de consumo, os relacionamentos podem ser encerrados a qualquer momento, tudo gira em torno do prazer. Com isso, a conta tem chegado para todos, independente de qualquer perfil”, avaliou. Para ela, quanto mais lugares o que chamou de sociedade líquida ocupa, mais os profissionais da saúde têm se desdobrado para tentar curar aqueles que a sociedade contribuiu para arruinar.

A conselheira dos direitos da criança e do adolescente (CMDCA) e conselheira municipal da secretaria de assistência social (CMAS), formada em Serviço Social e Pedagogia, Elizethe Aparecida da Silva, também palestrou sobre o tema.

Em sua opinião, todos ainda precisam aprender mais sobre o suicídio para atuarem na questão. Segundo ela, normalmente quem mais precisa de socorro são os que necessitam de atendimento público. Assim, disse que os professores são capacitados para entender os sinais por meio da formação sócio-emocional. “O problema é muito familiar. Entre quatro paredes, fechando as portas, tudo pode acontecer. A gente vê a criança com olhar perdido porque ela não entende o sofrimento que está passado, a carga emocional que está vivendo”.

Para ela, é preciso que os profissionais da saúde e educação tenham sensibilidade para reconhecer os sintomas, por isso precisam conhecer as causas dos problemas lá atrás, muitas vezes vindos deste a infância, sem tratamento adequado. “Esse assunto tem que ser tratado o ano todo, não somente em setembro, porque ele acontece todos os dias”. “A educação tem que, mais do que ensinar, acolher as crianças. Por isso, a rede de atenção tem que ser fortalecida”.

Evelyn Yule, pós-graduada em saúde mental e desenvolvimento humano, mentora e coaching de gestão das emoções e auto-liderança aplicada aos negócios, foi a terceira palestrante. Ela iniciou sua fala contando que tentou suicídio cinco vezes e, felizmente, sobreviveu. Assim relata que a dor emocional é tão grande que a pessoa só quer ir embora, normalmente trazendo estes sentimentos de dores da infância, abusos e agressões ou interpretações que tiveram, sentimentalmente, diante dos fatos vividos.

Ela ainda falou sobre impactos das comparações geradas pelas redes sociais, sentimentos de abandono e falta de amor, além de baixa autoestima. Outros sintomas são quando a pessoa sente-se mal, apesar de não haver problema evidente, ou busca isolamento e não sente prazer em nada.

Evelyn, como sobrevivente, disse que procurar ajudar médica e tomar os medicamentos corretamente são ações imprescindíveis. Lembrou que ainda existem opções de medicina integrativa, que une corpo, espírito e emoções. Também falou que autoconhecimento é imprescindível para se amar e fortalecer qualidades e potenciais próprios.

A terapeuta proporcionou um momento de vivência aos presentes, de forma a praticarem o autoconhecimento e o sentimento de presença.

Mecanismos como fé, viver em comunidade, praticar atividade física, lazer, descanso, hobbies, buscar suporte e rede de apoio familiar (incluindo ensinando os pais a lidarem com seus filhos), auxílio profissional, psicoterapia foram apontados como meios de prevenção ao suicídio. Ainda foi relatado que podem existir fatores genéticos em casos de doenças mentais, porém esse não é a principal causa.

Rosinei Nantes, voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV), informou que está sendo montado um núcleo em Três Lagoas, porém destacou que o telefone 188 está à disposição de todos que necessitarem de ajuda.



 
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